O exame necroscópico tem como objetivo descobrir a causa da morte de um animal. Trata-se de um exame minucioso do cadáver, que deve envolver a análise criteriosa dos órgãos e estruturas corporais em busca de lesões que possam ter culminado no óbito, ou auxiliado no processo de evolução da patologia principal, responsável pela morte.


Saber do que um indivíduo morreu pode parecer pouco importante, uma vez que a morte daquele indivíduo não pôde ser evitada, mas essa é uma visão muito simplista. Vamos pensar em diferentes situações que mostram como a pergunta “Qual a causa da morte” é importante e precisa ser respondida:


  • Quando lidamos com a morte de vários animais por uma determinada doença não diagnosticada. A necropsia neste caso, pode permitir um diagnóstico definitivo da condição que vem afetando estes animais e, portanto, definir tratamento adequado e evitar a morte de outros indivíduos.


  • Um médico veterinário que perde um paciente que estava sendo tratado para uma determinada condição clínica pode, na necropsia, ter a resposta do que ocorreu: se realmente havia acertado o diagnóstico em vida, o que pode ter dado errado o tratamento? Se caso tenha errado o diagnóstico, aprenderá com aquilo e provavelmente acertará o diagnóstico do próximo paciente que apresente a mesma condição.



  • Em pesquisas científicas, a mortalidade e a forma da morte dos animais de laboratório permitem a determinação de meios mais seguros de tratamento a diversas doenças. Além disso, muito do que sabemos sobre a evolução de várias doenças veio através do estudo necroscópico.


  • Não menos importante, um tutor tem o direito de saber por que e como o seu animal veio a óbito.



  • A necropsia se revela ainda, de suma importância quando estamos diante de casos de maus tratos a animais, abuso e outros diversos fatores que envolvem agressão ao animal por terceiros. Saber os meios como um agressor desencadeou lesões ou patologias em um animal muitas vezes permite a solução de inquéritos investigativos, como a identidade do agressor, seu modo de ação e de certa forma, até mesmo um pouco do seu perfil psicológico. Muitos estudos revelam que a agressão contra animais pode ser um processo de iniciação à vida criminosa, sendo este um fator comum a diversos assassinos em série. O uso de armas de fogo ou pneumáticas na injúria animal, por exemplo, pode nos dar muitas pistas sobre o agressor. A maioria dos agressores neste caso são do sexo masculino. Adolescentes e pré-adolescentes normalmente usam armas de ar comprimido. Homens adultos em meio urbano usam armas de mão, enquanto em meio rural é mais comum o uso de armas longas, como espingardas ou rifles. Lesões repetidas ou o uso de meios como a asfixia, que causam muito sofrimento à vítima demonstram um agressor com força física e frieza. Informações como essas, obtidas na necropsia, são importantes e podem servir como qualificadoras no momento de determinação da pena do agressor.


Devemos saber, no entanto, que o exame macroscópico na necropsia nem sempre nos permite chegar a um diagnóstico definitivo, mas o exame necroscópico serve ainda como um meio bastante eficaz de coleta adequada de diversos materiais biológicos que podem ser analisados posteriormente. É possível a coleta de materiais para exame microscópico, toxicológico, genético, microbiológico, imunológico, de biologia molecular, dentre tantos outros métodos diagnósticos.


Uma vez que sabemos a importância da necropsia, surge uma dúvida importante! Qualquer pessoa pode realizar necropsia em um animal?


E a resposta para essa pergunta é: Qualquer médico veterinário habilitado no Conselho de Medicina Veterinária é considerado um profissional capaz de realizar necropsia.


É obvio que um profissional patologista teoricamente tem mais sensibilidade para “montar o quebra-cabeça” na análise necroscópica, mas isso não quer dizer que veterinários de outras áreas não consigam realizar o exame. Por isso, é importante saber realizar o procedimento, coletar materiais de forma adequada, descrever os achados, mesmo que ainda não saiba seus significados e, se possível, fotografar as lesões para obter ajuda caso seja necessária. Desta forma, médicos veterinários de diversas áreas podem determinar um diagnóstico, em conjunto, ao final.


Se você quer aprender de forma simples e didática, como executar uma necropsia em animais domésticos, aproveite a oportunidade criada pela Forensic Med Vet! Estamos na 3ª edição deste curso maravilhoso, que será realizado em junho de 2021.

Elucidação de crimes envolvendo animais é um assunto de extrema relevância na sociedade, tanto para construção de uma civilização mais digna, como também perante a justiça, portanto, a Medicina Veterinária Legal, é uma especialidade que vem ganhando espaço progressivamente.


Conhecimento dos Médicos Veterinários a respeito de intoxicações em animais de companhia é importante para diagnóstico correto e orientação adequada aos proprietários de maneira preventiva. A importância da identificação do agente causador da intoxicação influencia diretamente o tratamento e sobrevivência do animal, pois embora seja importante tratar a clínica do animal podem ser necessários antídotos ou terapias específicas.


Casos ocorrem com frequência e costumeiramente são omissos de relatos ou notificações, sendo a intoxicação exógena o tipo de maus tratos prevalente. A energia química é a mais comum, se destacando as intoxicações letais em cães e gatos provocadas por pesticidas como carbamatos, seguidos por outros agentes tóxicos como cumarínicos, organofosforados, piretroides e organoclorados.


Muitas vezes há subnotificação devido ao desconhecimento da população perante a legislação, sendo que nos casos de óbito suspeito, onde não há sinais de violência aparente, também deve ser realizada investigação para verificar a causa mortis e processo principal.



Intoxicação de animais é ato repreensível previsto no art. 32 da Lei de Crimes Ambientais 9.605/98, portanto é fundamental a notificação de órgãos competentes como a Delegacia de Crimes Ambientais, Polícia Civil ou mesmo a Polícia Militar.


Nos casos de diligência médico-legal o diagnóstico preciso é necessário, tanto para o feito legal, relação com a justiça, como também determinar riscos de exposições futuras a seres humanos e animais por uma contaminação do agente, além disso, aumenta-se a chance do Médico Veterinário reconhecer os casos subsequentes de intoxicações pela mesma substância.


O diagnóstico da intoxicação é fundamental para o andamento do processo judicial e a confirmação do caso suspeito, sendo para isso necessário realização do exame necroscópico fotodocumentado e exame toxicológico. Além disso, deve ser providenciado o Boletim de Ocorrência pela autoridade policial para que possa ser instaurado o Inquérito Policial.


A conclusão de um diagnóstico de intoxicação depende de uma boa anamnese, sinais clínicos e exames complementares. A padronização das lesões anatomopatológicas de necropsias realizadas nos cadáveres de animais vítimas de envenenamento visa auxiliar a suspeita do Médico Veterinário para um correto diagnóstico de intoxicação fatal nos animais. Além disso, a coleta de informações referentes ao histórico do animal bem minuciosa fazem parte da condução da investigação, visto que o isolamento do agente tóxico é realizado mediante confronto.


É importante que existam profissionais habilitados para conduzirem e solucionarem casos forenses nas mais diversas circunstâncias, permitindo determinar a causa mortis e descobertas a respeito do óbito mesmo em condições difíceis, exercendo a patologia forense, permitindo o esclarecimento dos proprietários/tutores lesados para que auxiliem no encaminhamento correto de processos judiciais.

REFERÊNCIAS


ROCHA, N.S. Bases da Investigação Criminal. In: JERICÓ, M.M.; KOGIKA, M.M.; ANDRADE-NETO, J.P. Tratado de Medicina Interna de Cães e gatos. Rio de Janeiro: Roca, v.2, p.2261-2, 2015.


TREMORI, T.M.; ROCHA, N.S. O exame do corpo de delito na perícia veterinária (ensaio). Revista de Educação Continuada do CRMV-SP. São Paulo. v.11, n.3, p.30-35, 2013.


WANG, Y.; KRUZIK, P.; HELSBERG, A.; HELSBERG, I.; RAUSH, W.D. Pesticide poisoning in domestic animals and livestock in Austria: A 6 years



De acordo com a Lei de Crimes Ambientais 9.605, vigente no Brasil, no capítulo V, artigo 32 está enquadrado que a prática de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos é crime e tem como pena a detenção (três meses a um ano) além da multa, e no caso de ocorrer morte do animal a pena ainda pode ser aumentada de um terço a um sexto; protegendo legalmente os animais e estipulando medidas punitivas para quem comete crimes desta natureza. Em 2020 houve a aprovação da Lei 14.064, conhecida como Lei Sansão, que aumenta a pena para reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda, quando se tratar de crimes contra cães e gatos.


O aumento de processos onde há envolvimento de animais, tem tornado a Medicina Veterinária Legal uma especialidade crescente, para isso é fundamental a existência de profissionais capacitados para atuarem nesta área. Na Medicina Veterinária, é um ramo que vem ganhando espaço desde o final do século XX quando houve a introdução da disciplina de Medicina Veterinária Legal nos cursos, sendo a UNESP – Campus de Botucatu, a primeira instituição à ministrar a disciplina para os alunos da graduação.


A Medicina Veterinária Legal atua em diversas áreas: proteção animal, áreas com conservação do meio ambiente, combate ao contrabando, tráfico ilegal de animais, verificação de valor econômico, abuso animal, trânsito e transporte de animais, identidade e identificação, bem-estar animal, entre outros temas e também produtos de origem animal; ou seja, uma área de grande abrangência.


A utilização dos conhecimentos técnicos e científicos com a finalidade de auxiliar a Justiça é um dos papéis do profissional médico veterinário que entende de Medicina Veterinária Legal, que iremos chamar de Forense devido ao fato de estar associada ao Fórum, local onde se faz a Justiça. Este profissional irá aplicar sua formação exercendo a função de Perito, Assistente Técnico ou Legista.


Abaixo você tem alguns materiais para aprender um pouco mais sobre este tema, através de artigos publicados em revistas de livre acesso.

Exame de corpo de delito Revista CRMV 20
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• 127KB
Tremori et al
. Achados necroscopicos em
ACHADOS NECROSCOPICOS EM • 728KB
Tremori et al Traumatologia forense comp
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• 753KB